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Cartas

publicado por ónix, em 16.04.09

Hoje, ao abrir o móvel da sala, olhei para ela e achei que não lhe devia tocar. Voltei a olhá-la e a saudade falou mais alto. Peguei nela lentamente e abri-a... a caixinha de madeira onde descansam há tanto tempo as cartas que me escreveste num tempo já passado, quando estava distante em trabalho. As minhas mãos esguias acariciaram cada uma delas... foram-me dedicadas com aquele imenso amor que nos unia! Foram escritas com o teu humor peculiar e faziam-me sorrir à distância, quando me sentia triste e tão longe de ti e de nós. Não as li. Voltei a guardá-las com carinho. Arrumei a caixa. Não voltarei a abri-la proximamente. 

Depois... senti-me melancólica.

 

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publicado por ónix às 23:31

Noventa e seis...

publicado por ónix, em 02.03.09

Tinha feito noventa e seis anos. Estivémos juntos na esplanada a comemorar a sua longevidade, fumou uma cigarrilha e bebeu um descafeínado. E recordou o passado, contou histórias que nos fizeram rir e regressar a um tempo já longínquo. Agora, enquanto vagueio pela casa, relembro-o com saudade... as férias passadas com imensa alegria na sua casa alugada anualmente em S. Martinho do Porto, as festas dadas com familiares e amigos na sua adorada tertúlia decorada com um gosto peculiar,o cheiro da sua casa acolhedora e do café, sempre que lá entrava para o visitar e algumas vezes pernoitar.Construiu o seu "império" com suor e lágrimas e sem filhos, viu na minha mãe a sua sobrinha predilecta amando-a com um  amor imensurável durante toda a sua vida. Foi casado com a minha querida e saudosa tia Margarida- daí o meu nome- irmã da minha avó, aproveitou a vida em toda a sua plenitude, viajou pelo mundo fora.

Tinha feito noventa e seis anos. Partiu no dia seguinte, de madrugada. Na cama, quentinho... não a sorrir... talvez a sonhar, quem sabe!!

 

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publicado por ónix às 20:49

Lembra-me...

publicado por ónix, em 22.02.09

Não quero que me ames como me amaste, não quero que me olhes como me olhavas, nem quero que me desejes como desejaste.

Lembra-me somente no teu sorrir... e lembra-me também no teu sentir e no teu sonhar... lembra-me como uma carícia infinda, pois é assim que eu te vou lembrar... devagarinho e suavemente, até o tempo consentir!

 

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publicado por ónix às 20:58

Peripécias na Cidade Luz

publicado por ónix, em 02.02.09

 

Aqui há uns bons anos, fui a Paris com três colegas de trabalho. A viagem foi-nos proporcionada pela escola onde trabalhava, a um  preço módico e com  a Instituição a tratar de tudo, inclusive a marcação do hotel. Lá fomos nós, todas contentinhas  a abanar o rabinho de felicidade. A viagem correu bem e finalmente em terra, apanhámos o autocarro p'ro hotel. Quando comecei a olhar p'ras ruas que ia percorrendo e onde a carripana acabou o seu percurso, comecei a sentir o coração apertadito. "Mas... Paris é isto?" As ruelas eram estreitas, velhas, sem nenhum encanto e ainda por cima, meio imundas.

Descemos do autocarro e eis-nos em frente ao hotel, decidindo de imediato ir comprar fruta e iogurtes. Armada em boa, comecei de imediato a treinar o meu francês. "Ao menos isso... ao menos que me sinta na Cidade Luz a falar o meu francês fluente". Eu e outra colega tinhamos facilidade no desempenho da língua, ao contrário das outras duas que utilizavam uma espécie de  linguagem gestual tão peculiar, que aquilo era rir até me doerem os zigomas.

Preparávamo-nos p'ra entrar numa lojita que vendia o que pretendíamos e estando ainda nos treinos  para fazer o pedido e pagar, eis que o dono que se encontrava à porta abre a boca e diz:"Não vale a pena treinarem o francês. Nós somos portugueses e já vivemos aqui...."

Foi a derrocada! Deixei de o ouvir e quase de o  ver, a minha boca escancarada qual peixe fora de água, as minhas ideias num turbilhão. "Não acredito! Que desgraça tão grande! Mas afinal o que é isto? Paris ou Lisboa?"

Quase passada a desilusão toca a entrar no hotel. Nova derrocada! Estávamos cercadas por dezenas de cachopada de excursões, cada um falando a sua língua, aos tropeções em malas e troleys, fazendo lembrar o mercado em dia de lotação esgotada.

Bem, a coisa melhorou no dia seguinte quando fomos passear ao Champ de Mars rumo à Torre Eiffel, interrompendo a caminhada para uma das colegas ir a uma loja comprar não sei o quê. Como nunca mais aparecia fomos ao seu encontro e fomos dar com a pobrezita lavada em lágrimas porque tinha sido enganada no troco( a moeda ainda era o franco) e qual quadro patético, olhava para as moeditas que tinha na mão pedindo encarecidamente a nossa ajuda."Então não ajuda? Esquece lá isso... amanhã  já percebemos mais disto." E foi verdade.

O terceiro dia, esse sim, foi o máximo.Yupiii! Eurodisney com elas... agora, Disneyland Paris! Bem, quando entrámos parecíamos umas parolitas, de boca aberta a olhar p'ra aquilo... era tudo tão lindo! Tudo corria sobre rodas, quando nos lembrámos de andar no Space Mountain, a famosa montanha russa, que consiste naquela viagem numa nave espacial hiper possante para ver estrelas cadentes e satélites, em escuridão quase total. "Isto também não deve ir assim a uma velocidade fora do normal ...e bolas já sou crescidinha".

Qual velocidade, qual quê! Que ideia disparatada!  Quando aquilo disparou e começou a acelerar, não sei se vos diga se vos conte.Foi uma viagem interminável, de olhos fechados e boca aberta, a berrar a plenos pulmões, enquanto a amiga que ia a meu lado gritava aos meus ouvidos  que nem uma desalmada "Grita, Guida, grita"...E bem que lhe obedeci. E as estrelas e satélites, viste? Também não. Mas o resto do dia, foi fantástico.

Na última noite e para despedida  resolvemos ir a um piano bar,Le Ciel de Paris, situado no 56º andar do edifício mais alto da cidade - Tour Montparnasse. A vista da cidade toda iluminada era soberba, sem dúvida . Pedimos uma coca-cola p'ra cada uma e para terminar em beleza a nossa estadia na Cidade Luz, quando foi p'ra pagar até nos faltou o ar - mil e cem paus por cada cola( isto em 1997). Toma lá que é p'ra aprenderem!!!

 

A quem teve coragem de ler  este testamento, tiro-lhe o meu chapéu. E logo eu, que não sou apologista de posts extensos!

 

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publicado por ónix às 20:48

Era uma vez...

publicado por ónix, em 29.01.09

 

Era uma vez um menino de quatro anos... o Tomás.

Um dia, disse-me"Guida, eu não quero crescer"!

E eu fiquei-me assim... pasmada... a olhá-o com uma ternura infinda, sem conseguir argumentar aquelas palavras infinitamente genuínas, ditadas pela inocência de ser criança !

 

As palavras, vou guardá-las... onde dormem outras tantas, que jamais quero esquecer! 

 

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publicado por ónix às 21:28

Menina ou Senhora?

publicado por ónix, em 10.01.09

 

Aqui há uns anitos, fui colocada numa escola em Alvaiázere. Não sabendo de todo onde ficava a dita terrinha, parti p'ra investigação e claro, fiz  posteriormente o reconhecimento do caminho. Ficava sem sombra de dúvida longe do local onde moro, mas tendo em conta o sistema repressivo de uma escola particular onde anteriormente trabalhava, fazer aqueles 100 Km todos os dias, era sinónimo de profunda alegria e liberdade.

No dia de apresentação ao serviço entrei num cafézinho frio e sombrio, que mais se assemelhava a uma tasca, com um pequeno balcão e três ou quatro mesas encostadas a uma parede cinzenta e baça.

Ao sentar-me, imediatamente o dono dirigiu-se-me. Com certeza uma cara nova num meio pequeno como aquele, era bem vinda e possivelmente motivo de conversa.

 - Então o que deseja a menina... ou senhora. Posso perguntar? É menina ou senhora?

A minha resposta veio quase de imediato, e as palavras sairam sem quase sequer ter tido tempo para as reflectir.

 - Depende... se estiver a pensar no meu estado civil, sou menina.. se estiver a pensar na minha idade, sou senhora ( tinha na altura 32).

Não hesitou um segundo e prontamente respondeu.

 - Sendo assim, fica menina... e então o que deseja a menina?

Sorri e olhando-o, li-lhe um olhar profundamente genuíno.

 - Um café, por favor.

Estive lá um ano. Nunca mais lá voltei... o senhor, nunca mais o vi, mas jamais deixarei de o recordar !

 

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publicado por ónix às 21:51








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